Morre aos 93 anos o historiador Fernando Novais, referência da historiografia brasileira
Intelectual da USP revolucionou a compreensão do sistema colonial e formou gerações de pesquisadores no Brasil
A historiografia brasileira perdeu nesta quinta-feira (30) um de seus nomes mais influentes. O professor emérito da Universidade de São Paulo, Fernando Novais, morreu aos 93 anos, em São Paulo. Reconhecido por sua contribuição decisiva ao estudo do período colonial, ele deixa um legado acadêmico que redefiniu a forma como o Brasil compreende sua própria formação histórica.
Uma vida dedicada à história e ao ensino
Doutor em História pela USP em 1973, Fernando Novais iniciou sua trajetória docente ainda em 1961, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Durante décadas, atuou na área de História Moderna e Contemporânea, consolidando-se como um dos principais intelectuais do país.
Sua carreira foi marcada pelo compromisso com a formação de novos pesquisadores e pela defesa de uma história rigorosa, baseada em método, reflexão crítica e análise aprofundada das relações sociais e econômicas.
A obra que transformou a historiografia brasileira
O trabalho mais emblemático de Novais, Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial, tornou-se um verdadeiro marco nos estudos históricos. A obra inovou ao integrar dimensões econômicas e políticas na análise do sistema colonial português, oferecendo uma interpretação ampla sobre sua gênese, funcionamento e crise.
Esse estudo passou a ser leitura obrigatória para estudantes e pesquisadores, influenciando gerações e consolidando novos paradigmas na historiografia nacional.
Produção intelectual e contribuição acadêmica
Ao longo de sua trajetória, Fernando Novais participou de importantes projetos editoriais e acadêmicos. Nos anos 1990, coordenou a coleção História da Vida Privada no Brasil, que trouxe novas abordagens sobre o cotidiano e as experiências sociais no país.
Entre suas publicações, destacam-se também Aproximações: estudos de história e historiografia (2005) e os volumes de Nova História em perspectiva (2011 e 2013), em parceria com Rogério Forastieri da Silva. Nessas obras, aprofundou análises críticas sobre os rumos da historiografia moderna.
Influência intelectual e diálogo com outras áreas
Fernando Novais também teve papel relevante na articulação de espaços de debate intelectual. Foi um dos criadores do chamado “Grupo do Capital”, também conhecido como Seminário Marx, ao lado de nomes como José Arthur Giannotti e Fernando Henrique Cardoso.
O grupo foi responsável por renovar a leitura da obra de Karl Marx no Brasil, influenciando não apenas historiadores, mas também sociólogos, economistas e filósofos.
Atuação em outras instituições e legado acadêmico
Além da USP, Novais também lecionou no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas entre 1986 e 2003, e posteriormente na Facamp. Sua atuação sempre esteve ligada à interdisciplinaridade e ao diálogo entre diferentes campos do conhecimento.
Segundo o historiador Pedro Puntoni, colega de universidade, Novais defendia uma visão de história como um campo que busca compreender, de forma ampla, as experiências humanas no tempo, ainda que essa totalidade seja sempre uma aproximação.
Reconhecimento e homenagens
Em 2006, Fernando Novais recebeu o título de Professor Emérito da FFLCH-USP, tornando-se o 38º docente a alcançar essa distinção. O reconhecimento consolidou sua importância não apenas como pesquisador, mas também como formador de gerações.
Em nota oficial, a direção da FFLCH lamentou profundamente a perda, destacando sua contribuição intelectual, além de sua postura generosa e humana no ambiente acadêmico.
Despedida de um mestre da história
Fernando Novais deixa filhos, netos e bisnetos, além de uma obra sólida que continuará orientando estudos e reflexões sobre o Brasil. Sua morte representa o fim de uma era na historiografia nacional, mas também reafirma a permanência de seu pensamento na academia e na formação de novos historiadores.
Com informações do G1.






